Ela tinha os lábios trêmulos e os olhos piscavam várias vezes para tentar se certificar de que aquilo era real, tentar descobrir que era tudo um sonho, um péssimo sonho... na verdade, um pesadelo. Ele tinha o olhar firme, algumas lágrimas insistiam em sair de seus olhos, mas o orgulho era mais forte, o orgulho prendia tudo em sua garganta. As palavras que saíram foram poucas, mas foram suficientes para destruir qualquer tipo de esperança que ela tinha de começar tudo de novo. "Somos apenas amigos, agora." Você já sentiu uma faca cortando a sua garganta lentamente? Era essa a sensação que ela tinha. A dor era tão intensa que ela desejava a morte, até a morte era melhor do que aquela ferida, aquele buraco, aquele 'sem ele'. Mas ela não morria. Vegetar, era tudo que ela conseguia fazer, se arrastar como uma planta trepadeira sem nenhuma outra planta para se apoiar. Era como procurar um dos extremos, mas continuar sempre presa naquela merda de equilíbrio. E durante meses ela continuou com aquela ferida, continuou sentindo o corte, continuou sangrando amor. Algumas vezes se pegava sorrindo. Lembrava-se de como ele sorria bonito, lembrava-se das guerras de travesseiro que ele sempre ganhava, lembrava-se do calor de seus braços a envolvendo fortemente... Mas logo as lágrimas escorriam. Escorriam porque ela sabia que havia outra que estava aproveitando a pessoa mais perfeita do mundo, as lágrimas superavam o orgulho porque a dor era algo completamente real. E aí, quando ela se acalmava, ela se entregava ao sono. E sonhava com ele.
- Eu estou aqui... tenshi. - ele murmurou, a abraçando com toda sua força. E ela chorou em seus braços, fechou os olhos com toda força e encheu a camisa dele de lágrimas, deixou o sangue da ferida escorrer livremente. E de repente ela abriu os olhos. O sangue estava por toda a parte, estava nele, estava no pijama dela. Estava nas paredes e no chão. Havia sangue em toda parte. Sangue dos dois. Os olhos se abriram desesperados e o suor fazia de sua testa um rio. Foi apenas um pesadelo. Ou teria sido um sonho bom?... Sua rotina continuou a mesma. A má vontade de ir à escola, as crises existenciais e todas essas merdas que sua mãe acreditava serem da adolescencia continuavam da mesma forma. Só que agora ela sorria por alguns segundos à mais do que antes, ela sorria por ter conhecido um anjo, e por ter possuido ele algum dia. Alguns dizem que o tempo cura todas as feridas, outros dizem que não vale à pena amar... Mas aquela garota, aquela que foi torturada pela decepção por meses, ela não acredita nessas baboseiras. O tempo veio, veio e foi embora tantas vezes que ela não pôde contar. Ela evitou se apaixonar outras vezes, evitou tanto que criou um muro ao redor de si. Mas um dia veio outro anjo, com outro nome, e com outros dons. Veio outro anjo e ela conseguiu ver. O tempo não cura as feridas e vale à pena SIM amar e se magoar. Tudo vale à pena se for pela felicidade. Ela nunca deixou de amá-lo, nunca deixou se sentir falta daquele anjo maravilhoso e cheio de qualidades e defeitos incríveis, mas ela descobriu que tudo depende dela. E ela conseguiu entender que é o amor! É, só o amor cura, só o amor renova, só o amor faz crescer. Só o amor move o mundo. Aquele primeiro anjo continuou sendo especial, continuou sendo único. E ela continuou caminhando sempre em frente e carregando aqueles amores incríveis nas costas. Se arriscar vale à pena. E sua maior história de amor é consigo mesma. Quando você ama aquilo fica marcado pela eternidade em vocês dois, e nenhum outro amor ou nenhuma decepção apaga isso.