Tudo começou aos dez anos, bom, não me lembro bem, talvez tenha sido aos nove ou aos onze. O que realmente interessa é que começou por aí, nessa fase maldita que chamam de pré-adolescência, e eu chamo de entrada para o inferno. Não vou dizer que tudo começou quando eu nasci, é clichê demais e é mentira. Quando eu nasci tudo era um mar de rosas, sabe como é: filha única, família evangélica de classe média, tudo pronto para ser perfeito e organizado. Pena que nem sempre o que está planejado é o que acontece, não é? Mas talvez não seja uma pena tão grande assim...
Não me lembro muito bem, faz tantos anos... Mas ainda está gravado na memória. Era uma tarde ensolarada, eu estava na escola - na época tudo perfeito, escola particular, sala com as paredes perfeitamente pintadas e cartazes com letras, poemas e desenhos espalhados pela parede do fundo. Quadro à pincel, janela para uma das principais ruas da cidade, ventiladores ótimos e 9 coleguinhas felizes e legais. Sem contar a professora que era um anjo em forma de gente. - mas algo de diferente aconteceu naquele dia. Eu não fui embora pra casa com o papai depois da aula. A aula acabou e não havia papai, não havia mamãe e não havia casa. Naquele dia houve um hospital, um hospital e um incidente que mudou pra sempre a minha vida perfeita.
Foi tudo muito rápido, eu abri os olhos e boom! Hospital. Mamãe me dizia que era o hospital onde eu havia nascido, eu gostava de lá, era bonito, grande e bastante limpo. Eu gostava especialmente do cheiro, o cheiro de que estava tudo na mais perfeita ordem e paz. Mas no quarto da mamãe não havia paz, e muito menos ordem. As pessoas entravam e saiam frenéticamente, algumas mulheres de branco - que eu classifiquei como enfermeiras - tentavam colocar ordem na coisa. E eu me lembro que quando eu cheguei minha surpresa foi imensa. Não havia Bianca naquele lugar. Ah, vou explicar. Ser filha única, ainda mais quando se é lindinha e meiga é um privilégio deslumbrante, sabe? Toda a atenção é voltada para você, os presentes, os elogios, o carinho... E eu estava super acostumada a ser o centro. Mas naquele dia eu descobri que eu não era mais nada. Havia a mamãe deitada na cama, e ela sorria, não para mim, ela sorria para o bebê. É, havia um bebê em um berço estranho, na ponta da cama da mamãe, havia o papai sentado na outra cama, completamente vidrado naquele mesmo bebê, e haviam todos os meus amores, todos os meus tios e tias, e primos e primas... todos, todos eles olhavam para o bebê. E foi aí que eu descobri: eu estava sozinha. Isso foi aos sete anos de idade.