Não me lembro muito bem, faz tantos anos... Mas ainda está gravado na memória. Era uma tarde ensolarada, eu estava na escola - na época tudo perfeito, escola particular, sala com as paredes perfeitamente pintadas e cartazes com letras, poemas e desenhos espalhados pela parede do fundo. Quadro à pincel, janela para uma das principais ruas da cidade, ventiladores ótimos e 9 coleguinhas felizes e legais. Sem contar a professora que era um anjo em forma de gente. - mas algo de diferente aconteceu naquele dia. Eu não fui embora pra casa com o papai depois da aula. A aula acabou e não havia papai, não havia mamãe e não havia casa. Naquele dia houve um hospital, um hospital e um incidente que mudou pra sempre a minha vida perfeita.
Foi tudo muito rápido, eu abri os olhos e boom! Hospital. Mamãe me dizia que era o hospital onde eu havia nascido, eu gostava de lá, era bonito, grande e bastante limpo. Eu gostava especialmente do cheiro, o cheiro de que estava tudo na mais perfeita ordem e paz. Mas no quarto da mamãe não havia paz, e muito menos ordem. As pessoas entravam e saiam frenéticamente, algumas mulheres de branco - que eu classifiquei como enfermeiras - tentavam colocar ordem na coisa. E eu me lembro que quando eu cheguei minha surpresa foi imensa. Não havia Bianca naquele lugar. Ah, vou explicar. Ser filha única, ainda mais quando se é lindinha e meiga é um privilégio deslumbrante, sabe? Toda a atenção é voltada para você, os presentes, os elogios, o carinho... E eu estava super acostumada a ser o centro. Mas naquele dia eu descobri que eu não era mais nada. Havia a mamãe deitada na cama, e ela sorria, não para mim, ela sorria para o bebê. É, havia um bebê em um berço estranho, na ponta da cama da mamãe, havia o papai sentado na outra cama, completamente vidrado naquele mesmo bebê, e haviam todos os meus amores, todos os meus tios e tias, e primos e primas... todos, todos eles olhavam para o bebê. E foi aí que eu descobri: eu estava sozinha. Isso foi aos sete anos de idade.
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