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quarta-feira, 17 de março de 2010

II

Mas não foi aí que começou, bom, esse foi o primeiro pontapé inicial para todos os outros acontecimentos, uma chuva de coisas novas, algumas boas e algumas ruins. Acho que não vou classificá-las, nem eu sei exatamente como. Não estou dizendo que tudo que me aconteceu foi culpa da minha irmã. Mas pelo menos metade do que eu desenvolvi foi porque ela entrou no meu lugar. Dizem que coração de mãe sempre cabe mais um... vai lá dizer isso à um pobre filho mais velho. Não estou fazendo drama, pelo contrário, foi de certo modo 'bom' ela ter tirado a maior atenção de mim. Menos drama. Não, eu não disse que evitou o drama, só disse que diminuiu. Porque o maldito continuou lá, ele e um outro individuo traiçoeiro, o preconceito. Conhece uma família dividida? Pois é, meus pais são assim. No começo era tudo perfeito, mas até eu comecei a ver os podres, e eram tantos que eu não consegui ignorar. E eu carreguei tudo nas costas, toda aquela carga horrorosa e doentia.

Eu tentei me incluir na vida da minha irmã, no começo eu amei ela, amei com todo o coração, eu juro. Mas minha mãe me afastou dela, minha mãe e meu pai. Era como se tivessem medo de eu estar tramando um plano diabólico. E eu definitivamente passei a ter certo ódio por aquela droga de bebê que me roubou meus pais, minha perfeição, meus parentes, minha atenção e toda a minha vida. Mas eu aprendi, de certo modo, com isso. Eu comecei a caminhar por mim mesma, já que não havia mais ninguém que se interessasse em ver meus passos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Um.

Ninguém vai sentir sua dor, ninguém vai te sustentar, ninguém vai fazer isso por você. Não adianta ter pena, não adianta ficar chorando e reclamando pelos cantos. Temos que ser fortes. Fortes mesmo, temos que nos orgulhar das conquistas, andar de cabeça erguida, ignorar a dor, segurar firme na esperança e não deixar de vigiar. Não deixar jamais de seguir os passos certos. Ter ataques extremos e se sentir culpada depois não faz diferença nenhuma, chorar rios e oceanos por ter feito besteira não te ajuda a chegar a lugar algum. Dizer que 'tomara' ou 'talvez' nós consigamos não vai fazer isso acontecer. Tudo depende de você, tudo depende da sua força. Só os fortes sobrevivem... e você é forte, não é?

domingo, 14 de março de 2010

I

Tudo começou aos dez anos, bom, não me lembro bem, talvez tenha sido aos nove ou aos onze. O que realmente interessa é que começou por aí, nessa fase maldita que chamam de pré-adolescência, e eu chamo de entrada para o inferno. Não vou dizer que tudo começou quando eu nasci, é clichê demais e é mentira. Quando eu nasci tudo era um mar de rosas, sabe como é: filha única, família evangélica de classe média, tudo pronto para ser perfeito e organizado. Pena que nem sempre o que está planejado é o que acontece, não é? Mas talvez não seja uma pena tão grande assim...

Não me lembro muito bem, faz tantos anos... Mas ainda está gravado na memória. Era uma tarde ensolarada, eu estava na escola - na época tudo perfeito, escola particular, sala com as paredes perfeitamente pintadas e cartazes com letras, poemas e desenhos espalhados pela parede do fundo. Quadro à pincel, janela para uma das principais ruas da cidade, ventiladores ótimos e 9 coleguinhas felizes e legais. Sem contar a professora que era um anjo em forma de gente. - mas algo de diferente aconteceu naquele dia. Eu não fui embora pra casa com o papai depois da aula. A aula acabou e não havia papai, não havia mamãe e não havia casa. Naquele dia houve um hospital, um hospital e um incidente que mudou pra sempre a minha vida perfeita.

Foi tudo muito rápido, eu abri os olhos e boom! Hospital. Mamãe me dizia que era o hospital onde eu havia nascido, eu gostava de lá, era bonito, grande e bastante limpo. Eu gostava especialmente do cheiro, o cheiro de que estava tudo na mais perfeita ordem e paz. Mas no quarto da mamãe não havia paz, e muito menos ordem. As pessoas entravam e saiam frenéticamente, algumas mulheres de branco - que eu classifiquei como enfermeiras - tentavam colocar ordem na coisa. E eu me lembro que quando eu cheguei minha surpresa foi imensa. Não havia Bianca naquele lugar. Ah, vou explicar. Ser filha única, ainda mais quando se é lindinha e meiga é um privilégio deslumbrante, sabe? Toda a atenção é voltada para você, os presentes, os elogios, o carinho... E eu estava super acostumada a ser o centro. Mas naquele dia eu descobri que eu não era mais nada. Havia a mamãe deitada na cama, e ela sorria, não para mim, ela sorria para o bebê. É, havia um bebê em um berço estranho, na ponta da cama da mamãe, havia o papai sentado na outra cama, completamente vidrado naquele mesmo bebê, e haviam todos os meus amores, todos os meus tios e tias, e primos e primas... todos, todos eles olhavam para o bebê. E foi aí que eu descobri: eu estava sozinha. Isso foi aos sete anos de idade.